Coletânia

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mil Vidas

para Cintia Miguel

Espero que tenha apreciado a vista.
Que tenha cheirado as rosas,
Molhado os pés no mar,
Escrito um livro.
Se pisou mais na pedra do que na grama,
É porque o homem vê o impossível no belo.
Se dançou quando choveu onde tinha sol
E quando fez sol onde chovia,
Com certeza foi com graça e sabedoria.
Mas não, sua história não chegou ao fim
Se não há fins, só meios e começos.
O belo legado que deixou te ecoará ano após ano
Até que a vida nos una como sempre.
Eu sei que você olhou para aquele coração penoso
Com ternura, com carinho, compaixão.
E se ele não devolveu o que tu emprestou
Foi por descuido, desalento, desatenção.
Coração que não é pregado
É parafuso que não é parafusado.
Mas vá, linda borboleta de tantas cores,
Voe alto e nunca mais se esqueça
Do cheiro de bebê que acabou de nascer
E de relva molhada ao amanhecer.
Porque se mil vidas antes foi preciso
Para ser o que for e o que será,
Mais mil após e outras mil depois
Serão como um dia atrás do outro

Entre o Outono e o Verão.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Carta Nunca Escrita


Venho por meio desta e de outras até
Pedir pela mais sincera absolvição
A todo e qualquer coração
Que por ventura dupliquei.
A intenção foi inocente,
Creia e eu crerei também.
Pedreiro só vê terra abaixo dos pés
E pó acima da cabeça,
Os muros que levantam são altos, duros;
Os caminhos que pavimentam são pedregosos, absurdos.
O único sol que entra por sua janela
Foi pintado por crianças ao entardecer.
As únicas estrelas que vê brilhar
Foram moedas de prata jogadas ao amanhecer.
Mas aquele seu amigo lhe disse
Que com o tempo há da vida melhorar.
“E falta muito tempo?”, questionou esse
De capacete e martelo na mão.
“Tempo nunca falta”, respondeu aquele
Com um sorriso que sabia tudo,
“Tempo é igual água: quando o rio seca, chove;
Quando o tempo acaba, outro ano começa.”
“Então vai demorar para a vida melhorar”, constatou esse.
“A vida vai melhorar, a gente vai melhorar,
Mas só o tempo pode melhorar “, definiu aquele.
E os dois continuaram horas e horas
Sem parar com aquela ladainha
E você ali, de vestido rendado com rosas,

Sem saber se daquela cena chorava ou ria.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A Rosa Branca No Cume Da Montanha

Então agora é a rosa branca
Que desabrochou no cume da montanha;
É o dia claro que depois
Da escura e tempestuosa noite amanheceu.
Se não foi o que sonhou, o que divagou,
Resigne-se e reconcilie-se com você mais um vez.
Se não foi o que realizou, o que construiu,
Recomece e redefina você mesma outra vez.
O medo é apenas um ser rastejante e viscoso
Esperando em seu casulo para tornar outro ser,
De coragem e beleza portentosa
E abrir suas asas multicor
Deixando que o vento a carregue para o que a vida a terá
Assim como abrimos nossas mãos
Deixando que o vento nos traga o que a vida nos terá.
Se nem tudo pode ser como nós queremos,
Tudo pode ser como nós queremos.
“Não escolhemos o caminho”, disse o sábio; “o caminho,
Por mais tortuoso e pedregoso, é que nos escolhe.”
Os morros por que passou são para passar
E não para pesar mundo afora.
As chuvas por onde molhou são para molhar
E não para se afogar oceano afora.
Longa é a caminhada, o meio há de chegar
E o fim... para quê fim!
A encruzilhada existe não para errar ou se perder...
Existe para que possamos achar o caminho para casa.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A Obra

Do verde como da copa das árvores cintilando
A esmeraldina esperança que um reino todo atravessou
E da relva batida palco para a própria palestra fez
Fincando as raízes dos Ciprestes que trouxeram
Para sonhar mais alto que o Jequitibá que encantou.
Do branco do papel virgem ainda por eternizar
Que da alva palma a história edificou
Tal os pais a história do mundo edificaram
E da areia e da pedra, do sal e da água fez
Império que deles são e nosso um dia também será.
Do vermelho que nas veias do destino corre
E que por vezes em ingloriosos triunfos fora derramado
Deixou no tempo orgulho e bravura marcado
Que os artistas com lágrimas rubras pintaram
E com a seiva escarlate da carne a vida temperaram.
De corpo que as três bandeiras na pele ressalta
E novas terras por vir sem parar desbravarão.
De alma a ferro e fogo lavada e sacramentada,
A ideia na direita empunhada e a fé na esquerda escudada.
De coração aberto e da própria sina então sabedor

Que somos nós mesmos a maior obra que fazemos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Os Animais Têm Alma?

para Júlia Machado

Tenho para mim que os animais são anjos
Descidos na Terra como uma recompensa.
Recompensa dos dias divinos, do trabalho divino, da vida divina...
Mas também uma última missão
Já que cada um recebe uma incumbência.
Como cães, nos guardam de quem quer nos ferir;
Como gatos, nos fazem companhia e nós a eles;
Como pássaros, têm dois trabalhos:
Enchem nosso espírito e ambiente de cores e sons
E, como ainda possuem asas, levam e trazem qualquer mensagem do Criador.
Nos servem quando são cavalos, mulas;
Nos divertem quando são macacos, golfinhos;
Até nos alimentam quando são vacas, peixes...
No entanto, há quem diga que os anjos são a nossa recompensa.
Recompensa dos dias árduos, do trabalho árduo, da vida árdua...
Ora, se então os anjos são nossa recompensa,
E a recompensa dos anjos são os animais,
Então, de fato, os animais é que são nossa recompensa!
Ou se quiserem uma última missão...
Uma missão de humildade, companheirismo, proteção, servidão, doação...
Então talvez a nossa missão seja abrigar e não maltratar qualquer animal,
Porque talvez a nossa recompensa pode estar ali sem percebemos.
Então sim, meus caros e minhas caras,
Os animais têm sim alma.
E é a mesma que a nossa.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

De Portas Abertas

Havia uma casa no cimo de um outeiro.
Ela notou a singeleza daquela construção e se aproximou.
Encontrou a porta cerrada, porém...
Pensou em desistir, voltar para trás,
Mas sobre o chão verde e sob o teto azul,
Circulou aquela choupana e viu uma janela entreaberta.
Chegando perto, a luz de seus olhos invadiu um pequeno recinto
E iluminou-o de dentro pra fora e vice-versa.
Viu que entre estátuas de bronze e grandes estantes de madeira e aço,
Em um dos cantos, havia um menino sentado e sozinho
Que parecia brincar dando vida aos seus próprios dedos.
Ela sorriu ao ver aquela idílica imagem
E, como um espelho, ele sorriu de volta.
Pensou em entrar para falar com aquele ser
E circundando mais uma vez o casebre
Encontrou aberto um acesso para o quintal dos fundos.
Quando por ele adentrou, sentiu-se uma intrusa.
Estranhou aquele ambiente escuro e teve que tatear seus passos,
Mas as luzes se acendiam a medida que caminhava e sentiu-se uma convidada.
Andou por longos corredores daquela moradia e não viu o que esperava ver...
Esperava ver cômodos com mobília decorada ao invés de vazios;
Esperava ver fotos e quadros colorindo as paredes ao invés de nuas;
E esperava ver aquele menino, mas não o viu...
Contudo, ele estava lá, bem ao seu lado,
De olhos fixos para ela, imaginando o porquê. entre tantos e tantos lares,
Aquela criatura tão iluminada quanto um anjo foi entrar ali no seu refúgio.
Então, julgando que a vivenda jazia vazia, ela saiu pelo mesmo lugar que entrou.
Se ela tivesse ficado mais um segundo que fosse,
Teria encontrado nos cômodos mobília vasta que por ele decorou,
Teria visto nas paredes fotos tiradas e quadros pintados que por ele pendurou,
E teria visto então o menino que ora ficara assustado com repentina aparição.
No entanto, ao afastar-se, voltou rapidamente seus olhos
Para admirar uma última vez aquela casa
E achou que por um momento a passagem estava aberta.
Mas enganou-se ao vê-la clausurada e deixou uma despedida em forma de água e sal.
Se ela tivesse voltado por um segundo que fosse,
Ao puxar a maçaneta, saberia que o ádito apesar de fechado não estava trancado.
O menino o deixava assim porque temia que suas sombras escapassem  
Daquela penitência e turvassem os dias azuis, secassem as paisagens verdes.
Talvez se ela abrisse a porta e mostrasse que, mesmo que suas sombras fujam,
Sua luz, a luz própria do menino e a luz dos sóis das manhãs
Colocariam tais espectros no lugar a que pertencem.
Mas esse dia há de chegar.
O menino sonhou.
Sonhou que ela voltaria pelo mesmo caminho que chegou.
E já sabido da visita, ele a receberia de portas abertas
Com mobília para abraçá-la aconchegantemente

E paredes para pendurar o que se passou e o que se passará.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Leva-se As Respostas?

Está satisfeito?
Foi difícil escolher entre a fantasia e a realidade?
Entre a guerra dos fracos e a paz dos bravos?
Entre o seu sangue e o sangue deles?

Está feliz agora?
Foi isto que buscou em toda sua sina?
Foi isto que ganhou com sua prata?
Foi isto que plantou e o que colheu?

Por que foi embora?
Não houve chuva o suficiente no seu jardim?
Não houve fogos o suficiente no seu ano-novo?
Não houve sol o suficiente no seu deserto?

Sentirá falta de alguma coisa?
Sentirá falta daqueles que perdeu?
Sentirá falta daquilo que teve e não teve?
Algum dia sentiu qualquer coisa que seja?


E quem deverá responder essas perguntas: eu ou você?

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Infinito Inacabado

Acabou.
O sonho sonhado,
O desejo alcançado.
Do esforço travado,
Mente e corpo estilhaçado.

Sobrou
Algo a aprender ou ser lembrado?
Tanto tempo para no fim ter largado?
Quem sabe, ao próximo passo dado,
Consiga deixar o ignóbil medo de lado.

Soltou
Um grito e um pranto calado
Para que a racional alma mantenha seu estado
De suposta sapiência e virtude nomeado

Evanescente paisagem de um infinito inacabado.

Sem Título

Eles não compreendem!
Não o podem? Não o querem?
Ser diferente é tão ruim no mundo todo igual?
Igual na hipocrisia, no despeito, na intolerância, no preconceito...
Gente de muita falácia, não sabe se conter diante do ser contido.
Inteligência pra quê se só vai usar como castigo!
Se talvez enxergassem seus próprios medos, não fariam do medo dele espetáculo popular;
Talvez, quem sabe, veem no medo dele seu próprio medo particular - mea culpa.
RECUSA!
Não pode ser tão ruim ser diferente no mundo todo igual.
Inteligência pra quê se não querem, não podem compreender a joia rara que guardamos.
Não jogarei fogo no amigo.
Ghandi morreu de fome; Buda perdeu a casa e Jesus recebeu um beijo para quem tem inteligência no mundo igual tão diferente compreendesse.
Mas ele continuará sua caminhada solitária. Sonhando.
Sonhando que um dia será um campeão...